quarta 14 abril 2021
Artigo

A escolha pela esperança

MEDICINA/EVIDÊNCIA

“A única maneira de carregar o peso da minha própria mortalidade era me oferecendo para carregar o peso dos outros”. Foi assim que o escritor Kevin Toolis descreveu sua inconformidade com a finitude da vida, logo após sepultar seu pai na Irlanda. Aquele país tem relações culturais ímpares com a morte desde os primórdios celtas. Os velórios são cerimônias de três dias com o caixão aberto e um fluxo constante de pessoas. Esses hábitos contribuem para a negação coletiva do fim da vida, que marca o sentimento do povo anglo-saxão. Dentro desse mesmo questionamento, o autor continua: “não queremos interferir nos moribundos para não ser preciso olhar no espelho de nossa própria morte”, numa dialética com costumes diferentes que sua vida de repórter proporcionou.

Ciente da necessidade de adaptação, o Royal College of General Practioners em parceria com a End of Life Charity Marie Curie lançaram um novo guia direcionado aos médicos, familiares e demais profissionais de saúde que atuam em asilos, com o objetivo de prover cuidados paliativos e de terminalidade de vida de alta qualidade aos idosos institucionalizados. As orientações constantes dessa diretriz não são limitadas ao período de pandemia, mas objetivam-se permanecer e aprimorarem-se constantemente. Um dos caminhos propostos é a melhoria da comunicação entre todos os envolvidos (‘Daffodil Standards’ for care homes’ 27 January 2021 www.rcgp.org.uk).

O século XXI está modificando a relação com a morte não somente entre os povos nórdicos, mas no mundo todo, mercê da crise composta de alterações cognitivas, emocionais e comportamentais secundária à COVID19. Pessoas em condições graves, internadas em hospitais, não podem se comunicar com seus familiares, profissionais que prestam assistência estão exaustos, rituais de despedida foram extintos e há – muitas vezes – lutos sequenciais dentro de um mesmo núcleo familiar, gerando desafios adicionais para se lidar com as perdas e sofrimento por empatia, ou por sensibilização à instabilidade social gerada pela pandemia (Estud. psicol vol.37.Campinas,2020.Epub June 01, 2020).

Desde Platão aprendemos que a filosofia é repleta de teorias e ensinamentos sobre a morte. Schopenhauer chegou mesmo a afirmar que “a morte é a musa da filosofia” e Sócrates definiu a filosofia como “preparação para a morte”. Porém, há poucos paralelos na história onde o tema tenha causado tantos danos coletivos quanto os dias atuais. Na segunda grande guerra tivemos muitas perdas humanas, mas elas não aconteceram por consequência de uma doença que não poupa os exércitos mais fortes. É justamente da capacidade de recuperação experimentada nos anos posteriores ao combate que devemos resgatar o contraponto para a catástrofe que põe a humanidade neste contínuo funeral: Esse contraponto atende pelo nome de esperança. Na obra seminal de Platão, Fédon, há o relato da escolha de Sócrates pela morte, a ter que pautar sua vida em critérios e valores definidos pelas leis da pólis. Assim, a humanidade faz hoje a escolha pela aplicação da ciência, a viver no obscurantismo enquanto alimenta a esperança. As vacinas e as medidas sanitárias unem a humanidade em nome da Esperança e da nossa reconstrução emocional.

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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