quarta 27 janeiro 2021
Artigo

A polipílula não é remédio manipulado

MEDICINA/EVIDÊNCIA

Uma das maiores dificuldades enfrentadas no tratamento de pessoas com necessidade de uso contínuo de remédios é a chamada “adesão”, ou seja, conseguir com que os indivíduos que precisam fazer uso diário e correto de múltiplos medicamentos o façam de modo correto, exatamente como lhes foram prescritos. O entendimento das doenças é complicado por si mesmo e a não compreensão da terapêutica pode induzir perigos adicionais relacionados ao uso incorreto do que lhe seja receitado. Desde a folclórica letra ininteligível, passando pelo preço abusivo dos fármacos, culminando na possibilidade de interação medicamentosa, são notórios os equívocos interpostos à condução das doenças crônicas principalmente pelos mais idosos e por quem não possua um grau adequado de instrução formal.

Faz muito tempo que se discute no campo da cardiologia a possibilidade de uma polipílula, um tipo de remédio que reúna em uma só cápsula três ou mais substâncias para atuar em conjunto e que sejam eficazes para o tratamento da maioria das patologias cardiovasculares, pois a maioria delas têm uma raiz comum que requer o mesmo enfrentamento. Assim, reunir num único comprimido as conhecidas estatinas, múltiplos anti-hipertensivos e salicilato é o desafio. O renomado cientista Salim Yusuf acaba de publicar no “The New England Journal of Medicine” (November 13, 2020, at NEJM.DOI: 10.1056/NEJMoa2028220) uma pesquisa, na qual foram usadas 40 mg de sinvastatina, 100 mg de atenolol, 25 mg de hidroclorotiazida, e 10 mg de ramipril contra placebo, aspirina (75 mg) ou placebo, e vitamin D ou placebo nos pacientes que compuseram o estudo INTERHEART, perfazendo 5713 participantes.

Na pesquisa recém divulgada foram obviamente selecionados quem possuía ou não indicação para o uso de medicamentos ou de placebo, para vários propósitos de observação, inclusive a prevenção. Ao final do tempo restou concluído que o tratamento combinado de polipílula + aspirina possibilitou uma menor incidência de eventos cardiovasculares nos pacientes que ainda não possuíam doença estabelecida (prevenção) quando comparado com placebo, quando os envolvidos são aqueles que possuem risco cardiovascular intermediário.

Esses achados são importantes e devem ser analisados sem nos esquecermos que os fármacos envolvidos na pesquisa constam na rede pública de medicamentos, sendo – portanto – gratuitos e figuram entre os mais prescritos inclusive no Brasil, o que elimina o viés mercadológico. Porém, o recado mais importante é: polipílula não significa manipulado. Os medicamentos obtidos por manipulação não têm o aval das sociedades internacionais, tampouco são utilizados em estudos de grande importância (Arq Bras Cardiol 2016; 107(3Supl.3):1-83). Qualquer remédio deve, antes de ser receitado de forma isolada ou em associação, dever ter sido certificado quanto a biodisponibilidade e controle de produção (Resolução - RDC nº 33, de 19 de abril de 2000 -https://www.cff.org.br/userfiles/file/resolucao_sanitaria/33_19abril.pdf)

 Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

Desenvolvido por Enzo Nagata