quarta 23 setembro 2020
Editorial

Heróis da resistência

Desde 1968, quando o médico Edison Freitas de Oliveira ganhou as eleições municipais, Jales passou a ser conhecida como a capital da resistência democrática no chamado fundão da araraquarense.

Cabotinismo à parte, não era para menos. Naquele ano, só três cidades no Estado de São Paulo elegeram prefeitos da oposição —a já mencionada Jales, com Edson; Matão, com Laerte Mendes, e Campinas, com Orestes Quércia. Os três pertenciam ao MDB, que fazia oposição ao regime de exceção.

Neste mesmo ano, um jovem, Ruy Carlos Vieira Berbert, nascido em Regente Feijó, faria com que, décadas depois, fosse possível ligar as duas cidades por força da luta pela preservação do estado de direito.

Idealista como os rapazes e moças de sua idade, Ruy Carlos foi estudar na USP e passou a ser militante da causa democrática, engajando-se no Movimento de Libertação Popular. Depois, sumiu misteriosamente.

Saber o que aconteceu com ele passou a ser o objetivo primeiro e único de seu pai, Ruy Berbert, e de sua mãe, Otília Vieira Berbert. Foram anos de sofrimento atroz, só amenizado quando,em 24 de junho de 1992, por força de sentença da juíza Sarita Von Roeder Michels, da comarca de Natividade, ex-Goiás, atual Tocantins, desfez-se a farsa.

Sim, o regime de exceção contava uma história que não fechava, atribuindo a morte de Ruy Carlos, um moço cheio de vida, a suicídio na prisão, após ter sido preso acusado de terrorismo com o codinome de João Silvino Neto.

A família Berbert, que havia se mudado para Jales, onde já morava a professora Regina, a outra filha do casal, não se conformava com a tal versão.

A sentença da juíza Sarita foi contundente e vale a pena transcrever aqui trecho dela: “Cumpre à sociedade brasileira como um todo, resgatar a veracidade dos fatos e devolver a identidade real àqueles que, anônimos ou identificados por um codinome, ensinaram a esta nação que liberdade, igualdade e fraternidade são mais valiosos do que a própria vida. Homens e mulheres rotulados de “terroristas” que, em peregrinação, pelos lugares mais recônditos do Brasil, semeando ideais da democracia, foram subvertendo um sistema político agrilhoante da livre manifestação do pensamento de um povo, ressuscitam na consciência de cada um de nós quando deixam de existir os arquivos secretos”.

Em 19 de maio de 1993, em sessão ecumênica realizada na Câmara Municipal de Jales, da qual o diretor deste jornal foi o mestre de cerimônias, Ruy Carlos foi velado e depois enterrado simbolicamente no cemitério de Jales.

Agora, nova reparação e mais uma vez em Jales. A Justiça Federal condenou a União e os Estados do Tocantins e Goiás a indenizar em R$ 500 mil a família de Ruy Carlos. O autor da sentença foi o juiz Fábio Kaiut Nunes, da Vara Federal de Jales.

Pena que o velho Ruy Berbert já tenha viajado para o oriente eterno. Se vivo estivesse, certamente estaria com a alma duplamente lavada. 

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