quarta 27 janeiro 2021
Artigo

O absurdo em forma de pronunciamento (1)

Adolescentes sem prévia intenção de se tornarem tabagistas, mas que fazem uso recreacional de formas “alternativas” de cigarro, têm mais chance de se tornarem viciados, segundo resultados publicados na revista PEDIATRICS (Volume 146, number 6, December 2020). Com a mais absoluta certeza nenhum dos pesquisadores responsáveis pela publicação ficou contente com o resultado daquele estudo longitudinal que envolveu 8661 pessoas, e muito menos comemorou a exclusão (que certamente houve) de algum dos participantes.

Aliás, desde Josef Mengele não se tem notícia de nenhum mal intencional ou propositalmente infringido a um grupo de pessoas em nome de um pretenso propósito científico, que tenha sido exaltado ou comemorado.

Com exceção das barbaridades registradas pela história, pesquisas científicas só se justificam para confirmar ou descartar hipóteses clínicas e todas elas transcorrem em âmbito exclusivamente técnico, jamais sendo conduzidas para alimentar paixões ou nortear políticas outras que as aplicadas à saúde pública.

Nós, pesquisadores, vivemos cotidianamente uma expectativa que é tão ou mais angustiante que a própria espera dos resultados: os chamados critérios de inclusão e de exclusão de pacientes. Qualquer trabalho científico que envolva seres humanos é obrigatoriamente submetido ao crivo dos comitês de ética em pesquisa, que cuidam do respeito à vida e zelam pela integridade e pelo não prejuízo físico e emocional dos participantes. Atualmente integro o grupo de investigadores do Estudo Optimal, (OPTIMAL stroke/diabetes) coordenado pelo ARO (Academic Research Organization) do Hospital Israelita Albert Einstein (HIAE) e frequento congressos, jornadas, simpósios e reuniões técnicas que me aproximam de diferentes pessoas e que proporcionam conhecermo-nos uns aos outros em esferas além das técnicas.

Trocamos ideias e opiniões e essa relativa proximidade permite concluir que nenhum profissional fica satisfeito quando uma pessoa precise ser excluída de sua pesquisa, ou que se agrade com um paciente que não se enquadre nos rígidos protocolos. Não é do meu conhecimento um evento adverso, grave ou não, ligado ou não ao objetivo do estudo, que tenha sido comemorado. Ouso, ainda, dizer que trabalhos sem sucesso em seus propósitos iniciais não causam tanto desconforto emocional quanto o que se segue à exclusão de um ser humano de uma pesquisa por um efeito adverso.

Algumas pesquisas recentes foram interrompidas precocemente por ter sido constatado um benefício óbvio. Por outro lado, está cada vez mais difícil encerrá-las antes do tempo por malefícios dos participantes, dado o rigor técnico que a antecede. Assim, ainda que um evento adverso isolado imponha o término de uma pesquisa, os sentimentos dos cientistas são de frustração e de tristeza.

Aos pesquisadores resta comemorar sempre o sucesso do método, nunca os resultados, pois eles sempre poderão ser contestados. Antes do júbilo há o sentimento de aprendizado e da possibilidade de transmissão de conhecimentos. Os pesquisadores têm compromissos éticos que regulam as paixões até mesmo daqueles que, mercê de suas inerentes condições humanas, não tenham a moral como dogma. Homens públicos não são cientistas.

 Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

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