quarta 14 abril 2021
FATECNOLOGIA

O brasileiro não precisa ser estudado, ele precisa estudar

Existe uma máxima na cultura popular brasileira que diz que “o brasileiro precisa ser estudado pela NASA” (Administração Nacional Aeronáutica e Espacial, da sigla em inglês). De fato, ser estudado pela NASA, uma das agências mais emblemáticas quando o assunto é ciência e exploração espacial, demonstra o tamanho do nosso orgulho para com o famoso “jeitinho brasileiro”.

Na era da internet, é possível encontrar diversos vídeos e memes glamourizando nossas gambiarras do dia a dia, desde a resolução de problemas por meios alternativos e/ou nada convencionais, até na subversão ideológica das múltiplas interpretações das leis que regem nossa nação. Entretanto, quando a realidade bate à porta, temos uma única certeza: o brasileiro precisa mesmo é estudar e não ser estudado. Vejamos o porquê.

O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, conhecido pela sigla em inglês PISA, é uma prova mundial aplicada a cada 3 anos com estudantes de 15 anos, envolvendo leitura, matemática e ciência, além de educação financeira. A última edição aconteceu em 2018 e teve a participação de 78 países, os 38 membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e convidados, como o Brasil. Os resultados foram publicados em dezembro de 2019 e mostrou que a nossa nação agoniza quando o assunto é educação.

No quesito “leitura”, cerca de 50% dos estudantes não atingiram o mínimo de proficiência esperado até o fim do ensino médio, e apenas 0,2% atingiram o nível máximo. Isso significa que metade dos brasileiros não consegue ler e interpretar textos, estando cerca de dois anos e meio atrasados em relação aos países da OCDE.

Em relação à matemática, a situação é ainda mais alarmante. Os brasileiros que estão no pior nível de proficiência, ou seja, não sabem realizar operações simples com números inteiros representam 68,1%. Apenas 0,1% demonstrou o nível máximo de proficiência nessa área do conhecimento. Isso significa um atraso de 3 anos e meio em relação aos países da OCDE.

Em Ciências, lamentavelmente, em 2018 nenhum aluno atingiu o topo da proficiência. Ademais, 55% não atingiram o nível básico, ou seja, não são capazes de reconhecer uma explicação correta para um fenômeno científico simples, tampouco identificar se uma conclusão é válida considerando os dados fornecidos.

Convém destacar que esses números preocupantes foram alcançados no período que antecedeu a pandemia de Covid-19. Imagine agora a próxima edição do PISA, considerando o isolamento social, os estudantes que não tiveram o mínimo de acesso ao ensino remoto e, principalmente, aqueles que desdenharam dessa modalidade de educação, inclusive pais e responsáveis. O atraso de um ano é, na verdade, um retrocesso imensurável.

Essa formação deficitária impede que os brasileiros prossigam seus estudos, seja no ensino técnico ou superior. Em muitos casos, há falta de pré-requisitos, o que causa evasões e forma profissionais com baixo nível de competitividade. Por exemplo, apesar de o Brasil ser um país com cerca de 14 milhões de desempregados (números do 3º trimestre de 2020, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE), há milhares de vagas de trabalho altamente especializados que exigem muito estudo. As grandes empresas, por exemplo, estão importando talentos, visto que não há mão de obra suficientemente qualificada no país. De fato, o nível de competitividade de um profissional é reflexo direto de sua formação, do fundamental ao superior.

Enfim, no século XXI as profissões exigem mais do intelecto e da criatividade do que da força física, e estão causando grandes e rápidas transformações na ciência, na tecnologia e no mundo do trabalho. O “jeitinho brasileiro” não é e nunca será um substituto para uma formação de excelência. Precisamos estudar.

 Prof. Me. Jorge Luís Gregório

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