domingo 28 novembro 2021
Perspectivas

Seca no coração

Há quase 10 anos a luz vermelha da crise hídrica acendeu no Brasil. Agora, em 2021, vivenciamos a pior seca dos últimos 91 anos. Não foi por falta de aviso. Os especialistas do mundo inteiro vêm nos alertando sobre como estamos tratando mal o nosso meio ambiente, todos os biomas, mas especialmente a Amazônia.

Hoje, experimentamos, infelizmente, uma diminuição histórica das águas dos rios brasileiros, o que afeta a navegabilidade e, consequentemente, o transporte agrícola e industrial (para dentro e fora do país) e, especialmente, quem depende dele para sobreviver, seja pela pesca, pelo turismo, para o agronegócio ou até mesmo para acender uma luz em casa.

Com a estiagem, sofrem de pescadores a trabalhadores de hidrovias, de operadores logísticos a empresários do agronegócio. Mas, as principais vítimas estão entre a população brasileira, explorada com alta de preços provocada por uma grave crise energética, econômica e social.

O sinal que já era vermelho agora começou a apitar. Corremos o risco de que o país não tenha energia elétrica suficiente para atender a demanda nos horários de maior consumo no fim do ano, com risco de apagão (ainda que as versões oficiais digam o contrário. Não foi sempre assim?). Sem energia para a produção cessa o salário. Sem energia para os respiradores e outros equipamentos vitais, os hospitais perderão pacientes, que não precisariam morrer.

O cenário é desolador. Não há planejamento nem investimento. Não há ciência, só “achismos” acompanhados de superfaturamentos. E na briga entre os elefantes, quem sofre é mesmo a grama, como ensina o ditado africano.

Contudo, há uma seca pior do que a da água. É a da falta de humanidade, a qual, devastadoramente, experimentamos também. Falta-nos “ubuntu”, uma filosofia – também africana - baseada no respeito e na solidariedade. Uma pessoa com “ubuntu” tem consciência de que é afetada quando seus semelhantes são oprimidos. O lema é “eu sou porque nós somos”.

Falta-nos “ubuntu”. Afinal, quando foram naturalizadas as 700 mortes por dia, todos os dias, em quase dois anos, milhares delas por incompetência dos gestores públicos? Quando passamos a aceitar que quase metade das famílias brasileiras sofram de insegurança alimentar por ineficiência do Estado?

Quando passamos a olhar o mendigo como preguiçoso e negar-lhe o pão ou o abrigo? Quando começamos a negligenciar a dor alheia e chamá-la de “mimimi” em vez de oferecer serviços públicos de saúde mental? Quando ficou combinado que matar negros na porta de supermercados, queimar travestis e chicotear quilombas no meio da rua era possível em pleno século 21?

Quando passamos a achar normal que homens batam, mutilem e matem mulheres ao seu bel prazer sem punição rápida e exemplar? Quando o excesso de professores se tornou um problema em algum lugar do mundo?

Quando a aplicação de vacinas que salvam vidas foi decidida pela política e não pela ciência? Quando os políticos acharam que podiam ter malas de dinheiro, apartamentos, sítios, casas de praia, mansões em Brasília, lojas de chocolate sem serem incomodados pela Justiça?

Falta água, mas também falta pão e consciência social. Falta água, mas também falta moral e ética. Falta água, mas também falta vergonha na cara.

 Ayne Regina Gonçalves Salviano

(É jornalista, professora mestre em Comunicação e Semiótica. Empresária no ramo da Educação em Araçatuba e Birigui ) 

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