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Sobre saber ler, mas não saber interpretar o mundo

Por Ayne Regina Gonçalves Salviano
07 de outubro de 2018
Ayne Regina Gonçalves Salviano
Escrevo às vésperas de uma nova eleição presidencial e quando também serão escolhidos novos governadores, senadores, deputados federais e estaduais para o Brasil. E antes de qualquer outra ideia a ser exposta aqui, Viva a Democracia!, tão cara para outras gerações (meu eterno carinho à família Berbert).
Quando o Jornal de Jales for publicado neste domingo, dia 7 de outubro, todas as atenções estarão voltadas para o povo, para as urnas e para os candidatos. Mas este artigo não é sobre política. É sobre nossa forma de encarar o mundo, sobre a nossa capacidade de ler e nossa incapacidade de entender os acontecimentos. Só usarei o exemplo deste pleito porque o jornalismo precisa do factual.
Primeiro exemplo de como grande parte da sociedade está alienada: desde o início, esta disputa presidencial foi dividida entre apenas dois candidatos, como se não houvessem tantos outros partidos políticos no Brasil (são mais de 70, segundo o TSE – Tribunal Superior Eleitoral) e mais de 10 opções para o cargo de presidente da República. Esta polarização maniqueísta manipuladora pode fazer as pessoas adotarem o ‘efeito manada’ em pleno século 21. É de se espantar que ainda caiam nesta armadilha.
Para quem não sabe, maniqueísmo é uma filosofia religiosa fundada pelo filósofo cristão Maniqueu no século III. Século III? Sim! Naquela época o mundo foi dividido entre Bom (Deus) e Mau (Diabo). Mas muita coisa mudou desde o século III, não? A própria igreja. Parece que menos as pessoas. Hoje, elas têm o mundo em suas mãos, com acesso direto a milhares de informação. Mas, infelizmente, não sabem o que fazer com elas. Neste ponto, indico a leitura da revista Superinteressante onde cientistas provam que estamos ficando mais burros. 
Já o Efeito Manada, por sua vez, caracteriza-se pelo irracional, quando as pessoas correm só para um lado, ou só para o outro, sem pensar, apenas seguindo os demais elementos, querendo escapar de uma ameaça, mas sem ter certeza se sobreviverão ou não. Para entender como funciona, basta imaginar animais cercados por leões. Aquele que se desgarrar do bando será pego mais facilmente. O que ficar entre os seus tem chances de sobreviver. Mas não é uma garantia. O comportamento nestas eleições de 2018 se assemelha demais a esta irracionalidade. 
Dom Reginaldo Andrietta, bispo de Jales, escreveu artigo que correu o mundo por uma de suas redes sociais, do qual ouso reproduzir alguns trechos: “...muitíssimos eleitores, no entanto, desinformados sobre os reais interesses que estão em jogo, correm o risco de fazer escolhas sem conhecer suficientemente e analisarem criticamente os candidatos, seus partidos, quem os financia e seus projetos. 
Para chamar a atenção do seu rebanho, continua: “...são escandalosas as posturas alienadas de muitos cristãos e as adesões a um candidato à presidência que dissemina violência, ódio, racismo, homofobia  e preconceito contra mulheres e pobres”. Devo crer, então, que mesmo os doutrinados não entendem os discursos de seus líderes. Daí o paradoxo de saber ler, mas não saber compreender o mundo.
Precisamos reaprender a ler. Temos que continuar buscando informações de qualidade em veículos de comunicação de qualidade. Mas, principalmente, devemos usá-las a nosso favor. E não contra nós, humanidade, com suas diferenças, mas necessárias tolerâncias.

Ayne Regina Gonçalves Salviano
(é jalesense, jornalista, professora, mestre em Comunicação e Semiótica, MBA Internacional em Gestão Executiva)