quinta 13 maio 2021
Artigo

“Eu sou o medo de amar”

O medo é um inimigo brincando com as reações pessoais e coletivas. Até mesmo Jung, estudioso do inconsciente das massas e que cunhou o conceito de arquétipos, quando acometido pela doença que o mataria, assim se expressou: “foi só depois de minha doença que compreendo o quanto é importante aceitar o destino...porque nossa própria continuidade resistirá à torrente da vida e do tempo”, provando a resistência que temos – também no plano individual – de incorporar o novo.

Quando uma nova realidade se impõe, é natural que a rejeitemos, agitando a bandeira do que já está consagrado, ou usando estratagemas muito conhecidos na tentativa de manter as referências ancestrais: a negação e a ridicularização, armas que engalanam as notícias falsas para dar a elas uma falsa autoridade.

O JAMA (Journal of American Medical Association) chamou a atenção para a necessidade de proteger as ciências médicas contra as notícias falsas espalhadas pelas mídias sociais já em dezembro de 2018 (Protecting the Value of Medical Science in the Age of Social Media and “Fake News”. JAMA. 2018;320(23):2415-2416. doi:10.1001/jama.2018.18416). Os autores reconheceram a dificuldade de separar ciência de ‘ficção científica’ e usaram como exemplo os pacientes com câncer que preferiam usar terapias alternativas em detrimento dos tratamentos comprovadamente eficazes, diminuindo as chances de cura para suas doenças.

A literatura médica continuou acompanhando os malefícios das chamadas fake-news criando mecanismos que ajudam a diminuir os malefícios desses crimes sobre a saúde das pessoas, como o SISM (social impact in social media methodology) pela análise das características que estampam as informações falsas que circulam por facebook e twittter e identificou que elas são mais agressivas e, por isso, criam maior impacto nas mídias sociais (A New Application of Social Impact in Social Media for Overcoming Fake News in Health Int J Environ Res Public Health. 2020 Apr 3;17(7):2430. doi: 10.3390/ijerph17072430).

Essa última citação se reporta a uma publicação do mês de abril de 2020, portanto ainda sem a realidade imposta pela pandemia de COVID-19, mas que já se debruçava sobre o tema que se tornaria o foco das atenções: as vacinas. Os pesquisadores responsáveis tratavam da imunização contra o ebola com os meios disponíveis e o artigo usou palavras chaves atualíssimas: fake news; saúde pública; impacto das mídias sociais; vacinas.

Portanto, a academia, cujo interesse é aproximar-se da verdade, sofre os ataques da poderosa propaganda que manipula o medo em favor do silêncio. E a população, como os doentes de câncer e os opositores das medidas contra o ebola, vê-se obrigada a enfrentar a desinformação além dos malefícios inerentes às doenças que necessita combater. Se o medo de amar, só é vencido pela “entrega ... livre de apego e hostilidade para com ser algum da natureza” como declara Krishna (ROHDEN, 1984, Cap. 11) a verdade só se consagra pelo combate à ignorância.

 Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)

Desenvolvido por Enzo Nagata