quinta 13 maio 2021
Artigo

A destruição das placas e dos avisos

MEDICINA/EVIDÊNCIA

O ensino médio formou (bons) professores em seus cursos de magistério, também conhecidos como cursos normal, que educaram (muito bem) gerações de brasileiros. Curiosamente é este mesmo nível de ensino que em 2019 jogou fora da escola uma percentagem de jovens que não conhece o mínimo do que devia. A cada cem alunos que o concluíram no ano de 2019, somente cinco conseguem resolver problemas básicos de matemática. Tocaram-se algumas trombetas do apocalipse, avisando que males estão para chegar. E é desde os tempos bíblicos que sabemos que as melhores formas de se transmitir ensinamentos são por parábolas, símbolos e imagens. Os ditos populares a seu modo também ensinam. Alguns deles até parecem feitos sob medida para cada situação, dadas suas exatidão e atualidade. O que tem em comum entre essas modalidades de aprendizagem é o uso da linguagem oral.

Fora do campo teológico, mas dentro da esfera educacional, Sócrates, o parteiro das ideias, não escreveu uma linha sequer, exatamente por saber que a forma oral é a mais indicada para a transmissão de ensinamentos. Platão e os demais discípulos eram expostos às perguntas, tal qual o são hoje os alunos dos cursos que se utilizam do método PBL, com o objetivo tanto de estimular o raciocínio, quanto expor a ignorância dos seus contemporâneos. A tradição é tão atual quanto o ditado que diz:

 – “Depois de a casa ser arrombada não adianta colocar tranca na janela”.

E haja arrombadores! Ainda que na maioria das vezes eles mandem avisos antes de chegar às nossas janelas, somos pegos desprevenidos porque não somos tão bons alunos quanto os de Sócrates. Platão, Xenofonte e Aristófanes não somente aprenderam, como também os colocaram em prática e ainda os difundiram. Estamos, sim, mais parecidos com os atuais 95 alunos que não sabem matemática e com os demais personagens históricos que ignoraram avisos de perigos: Stalin, que não levou a sério os avisos sobre a iminente invasão de Hitler em 22 de junho de 1937, até os responsáveis pela saúde pública que ignoram os vaticínios do vencedor do Nobel e presidente da Universidade Rockefeller, Joshua Lederberg, quando disse que “A única grande ameaça à continuidade da dominância humana no planeta são os vírus”.

E é assim que reprisamos capítulos dessa novela, agora dentro da cardiologia. Foram publicados os resultados de uma nova técnica desenvolvida para o tratamento de placas coronarianas calcificadas e de difícil abordagem baseada em ondas de choque, a litotripsia intravascular (J Am Coll Cardiol Case Rep. 2020 Feb, 2 (2) 247-249). Apesar de auspiciosa e útil, a necessidade desse procedimento se alicerça na ignorância dos avisos. Sem as medidas per se capazes de evitar lesões, consequentemente não evitamos a necessidade de meter as trancas nas janelas depois da casa arrombada.

A aterosclerose tem seu ápice nos trágicos eventos cardiovasculares maiores, derrame cerebral, infarto e morte, e começa na adolescência para ser cultivada pela negligência aos fatores de risco clássicos, como hipertensão, diabetes, obesidade e aumento de colesterol até ser preciso destruir as placas de cálcio. No final, procuramos quebrar placas (de cálcio) porque não lemos as outras placas (de aviso).

 Dr. Manoel Paz Landim

(Cardiologista, Mestre em Medicina pela FAMERP, Preceptor e Médico do Ambulatório de Hipertensão do Departamento de Clínica Médica da FAMERP, São José do Rio Preto)


Os responsáveis pela saúde pública ignoram os vaticínios do vencedor do Nobel e presidente da Universidade Rockefeller, Joshua Lederberg

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