quinta 13 maio 2021
Artigo

Nossa vida é preenchida por mudanças e rupturas nem sempre pacíficas

MEDICINA/EVIDÊNCIA

Nossa vida é preenchida por mudanças e rupturas nem sempre pacíficas e que, na maioria das vezes, não podem ser consideradas doenças. Existem, inclusive, etapas do desenvolvimento que parecem sinônimos de conflitos, como a transição infância-adolescência e a posterior entrada na idade adulta e o relatório desenvolvido pelo Center for Adolescent Health do Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health “The Teen Years Explained: A Guide to Healthy Adolescent Development”, em 2018 nos ajuda entender algumas as importantes transformações pelas quais todos nós passamos e absolutamente necessárias antes de tacharmos crianças como hiperativas, jovens como desatentos e crianças como autistas. Todavia, a insegurança, a hesitação ou a indecisão, não são institutos exclusivos das pequenas idades. A vida adulta não nos exime desses sentimentos, mas as obrigações e os estigmas da madureza não permitem a uma mãe ou pai de família se dar ao luxo de ser diferente. Ano andar de cima, quem não se enquadra é vagabundo.

Quem tem um pouquinho mais de estrada não é contemplado com manual de conduta, como os existentes para adolescentes. Adultos que sonham, mas não são poetas, ou que admitem suas dificuldades extra-músculos, sem serem atletas profissionais, são obrigados a aceitar suas dificuldades não como características que precisam de atenção especializada, mas como traços pejorativos de personalidade. São infelizes que percorrem anos com a pecha de desatentos, de lenientes, de preguiçosos, de incapazes, ou sabe-se lá do que mais, sem a chance de receber a atenção necessária para sintomas que podem ser doença. É um mundo desigual, onde para as crianças e adolescentes se cometem pecados por exageros, enquanto para os adultos se peca por omissão.

Quando é a dúvida quem bate à porta, não adianta lembrar que “há uma crise nos séculos como nos homens” como escreveu Álvares de Azevedo. Diante da necessidade de crescer, cantar com Belchior “as lágrimas do jovem são fortes como um segredo e podem fazer renascer um mal antigo” é tão útil quanto “tocar um tango argentino”, como já propôs Manuel Bandeira em outra ocasião. Ainda bem que a Dr.a Heidi Godman, diretora executiva do Harvard Health Blog levantou o assunto no último dia 05 de fevereiro, quando listou sintomas muito familiares entre crianças e jovens, mas que podem permanecer durante a chamada meia-idade, a attention deficit hyperactivity disorder (ADHD), impondo desafios diagnósticos que não podem ser negligenciados, pois até mesmo o DSMV lista os 5 componentes capazes de diagnosticar essa doença: Dificuldade de concentração, dificuldade de concluir tarefas (comprometimento da função executiva), oscilações de humor, impaciência e dificuldade de manter relacionamentos.

Para cada uma das situações há recursos terapêuticos próprios. Para tanto, o primeiro passo para os adultos é reconhecer os sintomas como próprios de uma doença e não como traços de suas próprias personalidades. O segundo, é mais importante, é procurar a ajuda de um médico psiquiatra. Daí em diante é viver a possibilidade de enxergar a vida com a beleza e o encanto que até mesmo a dúvida e a insegurança podem nos oferecer.

O autor do texto, cita versos do cantor e compositor Belchior para reforçar sua linha de raciocínio no plano científico 

Desenvolvido por Enzo Nagata