quinta 13 maio 2021
Artigo

Reflexões de um clínico sobre o isolamento e a liberdade: Por que nossa casa virou uma prisão de infelicidade?

Muito vem sendo dito acerca dos efeitos psicológicos do isolamento. Em mesma frequência são sugeridas condutas, dicas e todo um arsenal de soluções para as dores provocadas pela quarentena forçada que vivemos no ano de 2020.

Dentre as principais queixas relatadas por pacientes, estão sensações de infelicidade por perda de liberdade. Já pararam para pensar por que estamos tão incomodados dentro de nossas próprias casas, dentro da nossa “gaiola dourada”?

Primeiramente, essa “gaiola dourada” não é tão sonhada assim para todo mundo. Existem muitas situações de vulnerabilidade, desde condições estruturais, financeiras à controles coercitivos/aversivos. Por exemplo, uma filha que se vê perante imposições do pai; ou de um casal que passa a conviver mais tempo juntos, lidando com suas imperfeições.

Sabendo que o Homem age sobre o mundo e por sua vez é governado pelas consequências de suas ações, qual importância das contingências de escolha na definição do que seria um contexto produtor da experiência de liberdade?

Ao privar alguém da “oportunidade de escolher” são observados efeitos colaterais típicos de contingências de punição negativa. Por exemplo, emoções como a raiva, decepção ou ira. A imposição da quarentena nos privou de fazer uma série de escolhas. Estamos num prolongado esquema de “escolha forçada”. Neste período temos sido obrigados à uma infinidade de coisas, desde aquelas que envolvem proteção individual e social (medidas de contenção da propagação do vírus, por exemplo), até mesmo a atender à cultura da “hiperprodutividade” e função familiar.

Onde se encaixa a infelicidade aí?

Estamos imersos em um sentimento enorme de insatisfação com a própria vida, e os mais sobreviventes são os que possuem maior variabilidade comportamental. Parece que viemos ao mundo dando bastante valor à oportunidade de escolha. A sensação de liberdade está intimamente intricada a ela. Quando nos tiram esse “brinquedo” reagimos emocionalmente. Emoções essas que remetem ao que se conhece como infelicidade.

E aí cabe a importância de refletirmos sobre nossas atitudes, nossas oportunidades de escolher viver, esquecer o ontem ou deixar para depois. Reconhecer nossos recursos, valorizar cada pedacinho do céu. Aceitar as consequências da sua escolha. Afinal, mesmo em “prisão domiciliar” (temporária!) há como se produzir contingências de escolha, certo?

 Amanda Sabatin Nunes

(Especialista Clínica em Psicoterapia Comportamental [ITCR-Campinas])

CRP 136588/6

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