quinta 13 maio 2021
Artigo

Sexy, inteligente, empoderada e autossuficiente? O mito e a sobrecarga do feminino

Sísifo é um personagem da mitologia grega que foi condenado a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, sendo que, toda vez que estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível, invalidando completamente o duro esforço despendido. Nesse contexto é possível estabelecer uma conexão com o papel do feminino em tempo contemporâneo frente aos apelos de uma sociedade exaustivamente em transformação.

O difícil não é impossível! Esse aforismo ecoa profundamente nas mentes pensantes quando se trata de uma análise da figura do feminino no século 21. Nunca foi fácil a luta das mulheres pela igualdade dos direitos. O movimento de mulheres é um dos movimentos sociais que rapidamente se popularizaram no mundo todo. Viver em uma sociedade que pratica milenarmente o machismo, como forma de poder, torna-se esgotante e adoecedor.

 A mulher do século 21 é o produto de muitas gerações de lutas, porém, o difícil não é impossível. O imaginário masculino ainda idealiza a mulher sexy, submissa e do lar. Entretanto, as demandas sociais, culturais, políticas e econômicas exigem que a mulher esteja ativamente presente e colaborativa nesses espaços. Evidentemente, temos longos caminhos a percorrer e as estatísticas sobre feminicídio, violência e preconceito contra o feminino nos conclama a uma luta incessante. É esgotante ver os dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – no Brasil, a cada 12 segundos, uma mulher é violentada de acordo com uma pesquisa da Secretaria de Políticas para Mulheres do Governo Federal, a cada 10 minutos, uma mulher é estuprada de acordo com o Mapa da Violência e, a cada 90 minutos, uma mulher é assassinada, de acordo com o IPEA.

É adoecedor observar o acúmulo de jornada de trabalho das mulheres. Elas também são maioria no trabalho doméstico, acumulando funções dentro e fora de casa. São as maiores vítimas de assédio sexual no trabalho, normalmente cometido por homens em situação de hierarquia superior, e ao mesmo tempo perceber que o mundo contemporâneo cobra dessa mesma mulher engajamento, empoderamento e autossuficiência, haja saúde mental!

Adoecemos pela sobrecarga e talvez pela inabilidade cultural de dividir tarefas com os parceiros. Talvez uma maneira lúcida de aliviar o feminino seja aprender a dividir as responsabilidades não só acerca dos filhos, mas também domésticas. Realizar buscas ativas pelo seu próprio bem estar, saúde e equilíbrio é tornar significativo o trabalho de sísifo.

(Professora, Gestora na Educação Infantil. Psicanalista. Janemaiolo@bol.com.br)

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