Na semana que passou, celebramos o Dia da Independência do Brasil, em 7 de setembro. Essa data é oportuna para refletirmos sobre uma situação, que vivemos em nosso país, e que trouxe, infelizmente, muita divisão nas cidades, nas famílias, nas redes sociais e, inclusive, nas igrejas. Será que um país pode ser livre e justo se não há confiança, respeito e capacidade de diálogo construtivo e propositivo entre seus cidadãos?
O próprio Jesus ensinou que “todo reino internamente dividido” acaba em ruínas e não pode subsistir (Mateus 12,25). A Carta aos Efésios, que a Igreja Católica nos convida a meditar neste Mês da Bíblia de 2023 (setembro), nasceu em um contexto de divisão e conflitos entre cristãos vindos do judaísmo e do paganismo, entre patrões e escravos, maridos e esposas. Em seus seis capítulos são apresentadas algumas pistas para a promoção da confiança, da reconciliação e do diálogo na comunidade:

  1. Somos filhos do mesmo Pai, irmãos e irmãs em Cristo, batizados e movidos pelo mesmo Espírito (cf. Ef 2,11-22). Jesus é a nossa paz. Ele derrubou o muro de separação. Por sua cruz e em seu corpo, nos reconciliou com Deus e com os outros, destruiu a inimizade e nos fez membros de seu Corpo. A salvação é para toda a humanidade, portanto, todo ser humano deve ser tratado com respeito, dignidade e solidariedade.
  2. Revestir-se do homem novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade (cf. Ef 4,17-24). A atitude de amor de Deus para conosco, demonstra seu respeito por nossa liberdade, consciência e por nossos processos de crescimento. Para Ele, não há casos perdidos e sempre existe possibilidade de mudança. Nós, pelo contrário, muitas vezes, nos aferramos a uma mentalidade, crenças, um jeito de viver, a uma ideologia! Para crescermos, é necessário deixar as seguranças da nossa bolha e se abrir ao novo, àquele que pensa, vive e ora diferente de nós! Deixar-nos questionar. Não é um caminho fácil, porém, é necessário percorrê-lo!
  3. Suportar uns aos outros com amor, humildade e mansidão, procurando conservar a unidade pelo vínculo da paz (cf. Ef 4,1-6). Deus tem paciência conosco, apesar de nossas limitações, pecados e infidelidades. Ele nos perdoa e dá suporte com a sua graça, nos ajudando a amadurecer. Somos chamados a agir da mesma forma com as pessoas, inclusive com os inimigos. Os conflitos e as divergências existirão, mas a violência e a exclusão, somente agravam o problema. Estimula-nos a uma postura ativa de busca de unidade, por uma cultura de paz, da ternura e do encontro.
  4. Abandonai a mentira e falai a verdade (cf. Ef 4,25-32). Para que exista confiança e diálogo entre as pessoas, é imprescindível o compromisso com a verdade em nossa comunicação. Quem se utiliza propositalmente de dados incorretos para argumentar e divulgar notícias falsas nas redes sociais, não age como filho da luz. Pelo contrário, caminha nas trevas e age conforme o diabo – aquele que divide – que é mentiroso desde o início.
  5. Ficar irado, mas não pecar (cf. Ef 4,25-26). Apesar de todos esses cuidados, pode acontecer que as atitudes, palavras e incoerências da outra pessoa ou grupo nos deixem irados. Nesse momento, a tentação é a explosão de ódio, traduzida no pecado das ofensas verbais ou atos de violência, muitas vezes irreparáveis. Se não há um compromisso de honestidade, de busca da verdade e de abertura e respeito ao outro, melhor se retirar e serenar. Desse modo, serão evitadas graves consequências à vida pessoal, familiar e comunitária.
  6. Combatamos o mal, não as pessoas (cf. Ef 6,10-18). A vida cristã é um combate contra o mal. Inclusive e principalmente, aquele presente dentro de nós. Por isso, a Carta aos Efésios afirma que nosso combate não é contra a “carne e o sangue”, ou seja, pessoas ou grupos, mas contra as mentalidades e a cultura que vão contra os valores do Reino de Deus. As armas para esse combate são um novo jeito de viver na verdade, na justiça, na paz, na fé, iluminados pela Palavra de Deus.
    Há muitas outras pistas e riquezas presentes na Carta, por isso, somos convidados a meditá-la sozinhos ou em comunidade. Ao colocá-las em prática, promovemos a confiança, o respeito e o diálogo entre as pessoas e grupos, de modo que o Dia da Independência possa voltar a ser celebração de um saudável patriotismo, onde, mesmo com nossas diferenças, nos sintamos nação e todos sejam incluídos.
Leandro Alberione Batista da Costa  

(Bacharel em Direito, escrevente, membro da Comissão Bíblica Diocesana de Jales)

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